Em um belo domingo minha filha acordou dizendo que estava com vontade de comer uma torta de morango. Era um desejo muito fácil de ser atendido e por isso nos dirigimos à padaria mais próxima de casa.

Chegando lá, ao se aproximar do expositor de vidro onde ficavam os doces, a atendente perguntou o que iríamos querer naquele dia. Num piscar de olhos a Duda apontou para a torta de morango e disse: “Quero esse, moça˜. Era uma tortinha com um morango bonito por cima, cortado ao meio.

A tortinha parecia bem gostosa, mas havia uma forte competição ao lado. Chocolate, doce de leite com banana, limão, maracujá e uma infinita de coisinhas lindas e deliciosas para comer. Mas, minha filha sabia o que queria e foi muito fácil fazer a conexão com a opção perfeita, apesar da quantidade de opções igualmente atrativas.

Metaforicamente, o propósito da torta de morango estava isolado e nítido: o morango colocado no topo do docinho. Quando o propósito está devidamente isolado é aí que ele funciona de verdade.

Agora imagine que exatamente essa mesma torta tivesse uma cobertura de massa por cima do morango. O que permitiria a identificação seria uma placa escrito “torta de morango”. A proposta da torta seria bem menos atrativa, inclusive para aquelas pessoas que buscam especificamente por ˜uma torta de morango˜. Facilmente seriam seduzidas pela bomba de chocolate ou qualquer outra opção concorrente.

Essa é uma metáfora que eu sempre uso em dois momentos: quando estou falando ou conduzindo algum trabalho sobre branding e nos momentos em que estou desenvolvendo pessoas do meu time no sentido de ajudá-las a se conectarem com a razão pela qual acordam todos os dias para ir trabalhar. Usei muito essa metáfora quando trabalhava em uma empresa chamada ContaAzul, startup Catarinense, como o responsável pelo trabalho de rebranding e ela sempre foi útil para ajudar as pessoas a entenderem o motivo pelo qual é relevante ter clareza sobre o propósito que guia nossos esforços.

O ponto é: simplesmente declarar algo que soa bem e dizer que é um propósito não ajuda. Ele precisa estar separado de todas as outras camadas que compõe a dinâmica de nossas vidas. Particularmente, minha opinião é que o “Golden Circle" ajuda muito nisso, mas mesmo assim é preciso tomar cuidado para não ser leviano ao definir o “Why”, o que normalmente implica em um grande erro: acreditar que a grande paixão do momento é o propósito.

Sem um propósito claro pessoas, times e empresas apenas cumprem tarefas ao invés de desenvolverem em si o poder de criar o extraordinário. Com isso miram sempre para o alto; engajamento, clima organizacional e desempenho deixam de ser uma pauta preocupante pois essas coisas simplesmente acontecem.

Deixo a provocação: falar de propósito de forma leviana ou negar a importância de se conectar a um são ambas soluções confortáveis e possíveis. Conectar-se verdadeiramente a um propósito requer a coragem de mergulhar profundamente na razão da existir de uma pessoa ou de uma empresa. Requer se posicionar com clareza e, consequentemente, abrir mão de várias outras posições possíveis. Mas também significa mais nitidez quanto ao que diferencia de todas as outras opções igualmente atraentes.

Não caia na armadilha de achar que isolar o propósito seja uma tarefa simples. É preciso ter segurança quanto ao valor que se propõe a gerar para um problema do mundo, então o propósito terá muita relação com o fator que te faz acordar todos os dias para encarar essa bronca (é preciso encontrá-lo e deixa-lo em evidência). Muitas vezes é mais confortável esconder o morango do que deixá-lo exposto, mas daí muito terá  que ser investido na plaquinha que diz algo a respeito do que você propõe.